Sobre Fabrício

O Grupo Recanto começou como um projeto de conclusão do curso de gestão empresarial na fundação Getúlio Vargas e hoje é uma das maiores clínicas de tratamento para dependentes químicos do norte e nordeste. Fundado em 2008, com o objetivo de cuidar de homens adultos com problemas com álcool e outras drogas.

Um dos sócios e idealizador do Grupo, Fabricio Selbmann que é catarinense, mudou-se para Belém-PA aos 7 anos de idade. Dependente químico em recuperação, limpo desde 1995, conta que desde a sua infância já tinha contato com substância psicoativas. “Como eu vim de uma família alemã era natural experimentar bebida no copo do pai, tomava algumas doses de caipirinha em algumas festas e isso parecia muito normal”, revelou Selbmann.

Aos 13 anos teve seu primeiro contato de uso e abuso de substâncias, por uma necessidade de se inteirar ao grupo de amigos que queria fazer parte, começou nesse caminho sem volta. “A gente ‘tava’ vendo um jogo de vôlei do Brasil, eu e meus amigos fizemos duas garrafas de caipirinha. Foi nesse dia que eu tomei meu primeiro porre. Depois dessas duas garrafas um dos meninos ainda trouxe cola de sapateiro e que algumas pessoas cheiraram, inclusive eu e não foi legal. Quando voltei pra casa vomitei a casa inteira” recordou Fabricio.

A família reprovou toda essa situação e o próprio Selbmann prometeu para si mesmo e para toda família que isso jamais se repetiria e que ele nunca mais iria beber. De fato, por três anos, essa promessa foi cumprida. Mas nesse meio tempo pela mesma necessidade de se encaixar novamente no grupo de amigos, em uma roda de violão na praia de Algodoal, perto de Belém, aos 14 anos, experimentou pela primeira vez a maconha. Para Selbmann a primeira sensação foi de relaxamento e tranquilidade, ele apenas se recordou dos pais, pois eles sempre falavam que droga era uma coisa absolutamente ruim, mas não era isso que ele estava sentindo. “Sentia uma sensação muito forte de me bastar, de poder estar sozinho comigo mesmo, de poder estar curtindo aquele momento”, frisou Fabricio.

Então chegou uma nova fase. Aos 16 anos, antes chamado de careta e depois visto como “maluco” foi o status que acabou ganhando com essa nova vida. Foi tão prazeroso que a adicção verdadeira começou num processo progressivo. Na época, perto de concluir o segundo grau, o consumo de substâncias se tornou mais frequente. Pedia dinheiro à mãe com o propósito de comprar lanche, mas acabava usando para comprar maconha na universidade federal, já que as polícias civis e militares não entravam. Selbmann e mais quatro amigos ficavam na beira do rio fumando a tarde inteira e na hora de ir para casa, querendo disfarçar o cheiro, tomavam uma ou duas cervejas e então iam embora. Repetindo isso durante dois anos.

Nas férias da escola, viajou de barco para o interior do Pará com uns amigos. O dono do barco um conhecido, para deixar todos mais felizes levou dois vidros mais ou menos do tamanho de um “nescafé”. Um cheio, com maconha e outro pela metade, com cocaína, e aí todos se juntaram e começaram a cheirar. “Nessa época já tinha experimentado mesclado, tentei fumar mesclado e eles começaram a dizer que eu estava estragando a droga e no final dessa viagem eu conheci a cocaína cheirada pela primeira vez”, ressaltou. A sensação dessa vez, diferente da maconha, foi de poder e controle.

Com a progressão da maconha e do álcool e a inserção da cocaína, as coisas começaram a se complicar, chegando ao ponto de escolher as drogas em vez da sua família.

O declínio não parou por aí. Em uma saída com um amigo, eles cheiraram tanta cocaína que acabaram perdendo o controle de si e Fabricio, por gostar de falar, acabou contando tudo sobre sua vida pessoal e amorosa para o amigo. Ao sair do estado alterado pela droga e tomando consciência do acontecido ficou com muita vergonha e foi a partir desse episódio que escolheu o mesclado como a sua “droga de preferência”. “O mesclado pode ser feito com maconha e cocaína, com maconha e pasta de cocaína, maconha e crack. No meu caso foi maconha e a pasta de cocaína”, destacou.

Dos 18 aos 21 anos a quantidade de drogas foi crescendo, nessa época começou o processo de tentar negar a adicção. “Eu tomava porres homéricos e isso eu achava que era porque eu gostava muito de rum com coca cola e parei de tomar. Fui para o uísque e cerveja como se as coisas fossem mudar por causa do tipo de bebida e é claro que não mudaram porque na verdade eu estava usando uma quantidade de drogas absurdamente pesadas”, salientou. Foi quando notou que aos 21 anos estava com 57 kg, muito magro, pois sua altura era de 1,78cm.

Foi nessa época entre os 21 e 23 anos que Fabricio vivenciou seu total fundo de poço, ele chegou a ver a morte passar bem próximo dele. Com dois princípios de overdose pelo uso abusivo de cocaína e um desmaio por misturar maconha e cachaça, chegou a ser um quase afogamento, em uma poça d’água, onde só sobreviveu porque foi salvo por pessoas desconhecidas.

Mesmo diante de toda essa situação a família de Selbmann ainda negava a sua dependência química. “muitas vezes eu acordei com minha mãe chorando do meu lado e ela falava que tinha 99% de certeza de que eu usava drogas, mas se agarrava no 1%. Eu simplesmente brigava com ela. Dizia para ela parar de besteira e de ficar controlando a minha vida, como se eu, nesta época estivesse em condições de fazê-lo, mas não era verdade”, relembrou. Vendo a total falta de domínio sobre o consumo de drogas uma amiga de Fabricio resolveu perguntá-lo: “Se seus pais descobrissem o seu uso de droga, o que você acha que aconteceria?”, Sua reposta foi um simples “Tô nem aí”. Então esta amiga tomou a decisão de contar a família dele toda a verdade, pois tinha notado que ele já estava no fundo de poço.

Sua família fez a primeira intervenção. Eles tinham descoberto um lugar que se o adicto tomasse uma injeção especifica (ante etanol) e voltasse a beber ou consumir qualquer tipo de droga, poderia até morrer. Por medo conseguiu ficar limpo por três meses, e sentiu a recuperação física e intelectual. Engordei, fiquei melhor, comecei a me relacionar melhor com as pessoas, e aí eu voltei a usar e estraguei absolutamente tudo”, destacou.

Após o natal, em Santa Catarina, voltou a fumar maconha e próximo ao ano novo já estava usando mesclado de novo. “Esse momento foi um momento ímpar pra mim, foi muito bom porque eu vi que aquilo que tinha demorado 09 anos, dos 13 aos 22 anos, depois de uma semana já tinha voltado a mesma degradação da droga, dificuldade de lembrar das coisas, e até lapsos temporais, onde eu perdia a carteira, não sabia como chegava em casa, etc. Depois de voltar a usar frequentemente, notou que estava no fundo do poço mais uma vez, descobrindo também que quando para de ingerir, a doença não regride, ela só estaciona. E quando se volta a usar ela continua progredindo, na mesma compulsão e obsessão do momento que o adicto parou. “Então se você tomava 20 a 30 cervejas, se você fumava 10 a 15 baseados, em uma semana você volta a exatamente o mesmo de capacidade de absorção de droga”, pontuou.

O fundo de poço de Fabricio foi muito doloroso, pois já não queria mais usar, e devido a compulsão pela droga e a sua dependência química galopante, sentia muita necessidade de consumir, “Eu entrava na boca chorando, não queria usar, mas tinha que usar. Por isso eu considero o tratamento involuntário necessário, para intervir na vida de pessoas que muitas vezes querem parar, mas não sabem como, e já estão correndo risco de vida”, ressaltou Selbmann.

Foi quando voltou de Belém usando drogas de novo, e então a família resolveu de fato internar. A clínica onde foi internado fica em São Paulo e nessa clínica 95% das pessoas eram profissionais tratando dos adictos. E foi lá que ele teve o primeiro contato com o grupo Narcóticos Anônimos (NA) e o grupo Alcoólicos Anônimos (AA), além disso, tinha um técnico de dependência química que falava dos 12 passos.

“Uma das maiores percepções que tive de primeira vista foi o 1º passo. Falava de admitir a impotência e a perda de domínio. Achei fantástico, porque tudo que eu tinha era impotência, realmente não podia controlar o meu uso de drogas. Costumo dizer que no final da minha drogadição nem os adictos me suportavam. Consumia tanta droga que as pessoas não queriam mais usar perto de mim”, destacou.

Após o tratamento da clínica Fabricio continuou a frequentar o grupo do NA e foi aí que descobriu que tinha dificuldades emocionais e psíquicas para lidar com a vida, então teve noção de que não conseguia viver com ou sem drogas. Estava descontrolado em casa, gritando com todos. E segundo ele, graças a Deus resolveu expor isso no grupo e foi então que conheceu um “padrinho de AA”, que tinha 18 anos de grupo, onde ajudou com o programa e convidou, para que juntos poderiam estudar os 12 passos. Esse processo durou em torno de quatro anos e meio e isto literalmente salvou a vida dele.

“Eu fiquei com outra perspectiva de vida e aí comecei a crescer na minha vida profissional, voltei a estudar, a vida começou a fazer sentido e foi nessa época que eu fui promovido e vim treinar no nordeste. Aqui eu conheci minha esposa de hoje. E aí depois do treinamento fui morar em Joinville, Juliana (esposa) foi morar lá comigo e posteriormente transferidos para Curitiba, foi mais ou menos dois anos e meio em cada cidade e depois eu fui promovido para o Rio de Janeiro”, informou.

Selbmann fez carreira em três multinacionais, passando pelos cargos de vendedor a gerente sênior. Como executivo passou por vários estados como Santa Catarina, Paraná, Rio de janeiro e São Paulo em cargo de gerencia onde fazia, paralelamente, serviços voluntários, como palestras, levando todo o seu conhecimento sobre os 12 passos em clínicas de tratamentos para dependentes químicos. No Paraná, morando apenas com a sua esposa e o primeiro filho, Fabricio tinha uma vontade imensa de ajudar os necessitados e assim fazia. “Quando morávamos em Curitiba, praticamente todas as semanas, Fabricio chegava com um dependente químico em casa, para que ele pudesse tomar um banho, comer e depois levar a clínica de tratamento para dependentes onde ele palestrava no interior de Santa Catarina.” destacou a esposa de Selbmann.

Depois de muitas mudanças de lugares o último e que mora atualmente foi Recife-PE. Dando continuidade aos estudos do MBA em gestão empresarial, Selbmann e sua esposa, fizeram um projeto de conclusão de curso, era uma clínica de tratamento para dependentes químicos, afinal já era da sua natureza a vontade de ajudar. Desde que chegou ao Recife, tudo foi se encaixando para a criação da clínica. No começo não existiam muitos grupos de tratamento na cidade, então O GRUPO RECANTO foi pioneiro nesse tipo de tratamento. “Nosso modelo era de forma diferenciada e inovador que as pessoas chegavam a entrar em lista de espera”, relembrou Fabricio.

Hoje, casado há 16 anos, com dois filhos, graduado em marketing e pós graduando em gestão empresarial e em dependência química além de ser um psicanalista em formação. Em junho/2018, Selbmann fez um estágio em uma unidade de Portugal para conselheiro em dependência química. “Reunindo todas as vivências de uso e recuperação de drogas, aliado ao conhecimento profissional e acadêmico de gestão empresarial e dependência química. E as experiências vividas em várias clinicas pelo Brasil, foi se formando um benchmark de atividades e processos de como funcionaria uma clínica para dependentes químicos”, destacou Fabricio.

Usar este conhecimento profissional e empírico fez toda a diferença para que assim o líder do Grupo Recanto, pudesse se tornar inspiração para os seus funcionários. E o sonho se realizar de forma eficaz, visto que um ano após a inauguração da primeira unidade já foi necessário, pela demanda e trabalho sério, a abertura de uma segunda unidade.

Hoje o Grupo Recanto conta com 3 unidades no Nordeste, duas na cidade de Igarassu (Região Metropolitana de Recife) e já é um projeto que deu certo e ajuda milhares de famílias no Brasil, lembrando que o fator inicial do Grupo Recanto e Fabricio de ajudar e levar a mensagem a dependentes químicos de forma social, ainda é uma verdade hoje. O Grupo Recanto disponibiliza 35 a 38 vagas sociais por ano, sem custo e sem a ajuda de órgãos governamentais. Além disso dos seus 100 funcionários, cerca de 45 são pessoas que passaram pelo tratamento e hoje fazem parte do quadro de funcionários da instituição.

Sobre o autor

Sou filho atencioso, esposo apaixonado, pai dedicado de dois filhos, graduado em marketing e pós graduando em gestão empresarial e em dependência química além de ser um psicanalista em formação e gestor do Grupo Recanto. Mas só por hoje...

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