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Opioides: conheça os efeitos, abstinência e tratamento

Os opioides são substâncias utilizadas principalmente no controle da dor, mas que também apresentam potencial para causar tolerância, dependência e overdose quando utilizados de maneira inadequada, prolongada ou sem acompanhamento profissional.

Entre eles estão medicamentos conhecidos, como morfina, codeína, tramadol, oxicodona e fentanil, além de substâncias utilizadas de forma ilícita, como a heroína.

Embora tenham importante função na medicina, especialmente no tratamento de determinados quadros de dor, seu consumo exige critérios e acompanhamento adequado.

O problema ocorre quando o uso deixa de seguir uma finalidade terapêutica ou começa a ocupar um espaço central na vida da pessoa.

O organismo pode desenvolver tolerância, levando à necessidade de doses maiores para alcançar determinados efeitos, enquanto a interrupção pode provocar sintomas de abstinência.

Compreender o que são os opioides, seus efeitos, os sinais de dependência, os riscos de overdose e as possibilidades de tratamento é fundamental para prevenir complicações e buscar ajuda no momento adequado.

O que são opioides?

Opioides são substâncias capazes de se ligar aos receptores opioides presentes principalmente no cérebro, na medula espinhal e em outras regiões do organismo.

Essa ação modifica a percepção da dor e também pode produzir sedação, relaxamento e, em algumas situações, sensação de euforia.

A denominação engloba substâncias naturais extraídas da papoula, substâncias semissintéticas e medicamentos totalmente sintéticos que apresentam efeitos semelhantes.

Entre os principais exemplos estão:

  • morfina;
  • codeína;
  • heroína;
  • tramadol;
  • oxicodona;
  • hidrocodona;
  • metadona;
  • fentanil;
  • tapentadol.
Mão sobre o chão ao lado de uma seringa e comprimidos espalhados

A morfina foi um dos primeiros princípios ativos do ópio a ser isolado. Seu nome é relacionado a Morfeu, figura da mitologia grega associada aos sonhos, fazendo referência ao efeito sedativo da substância.

A partir do desenvolvimento da farmacologia, diversos outros medicamentos capazes de atuar nos receptores opioides passaram a ser utilizados na medicina.

Quando empregados corretamente, esses medicamentos podem desempenhar papel importante no controle de dores moderadas ou intensas, em cuidados pós-operatórios, determinados tratamentos oncológicos e outras situações avaliadas pela equipe médica.

Entretanto, o uso prolongado, inadequado ou sem acompanhamento aumenta o risco de efeitos adversos, dependência e overdose.

Opioides e opiáceos são a mesma coisa?

Embora os dois termos sejam frequentemente utilizados como sinônimos, existe uma diferença conceitual.

Os opiáceos são substâncias derivadas diretamente do ópio e da papoula, como a morfina e a codeína.

opioide é uma definição mais ampla. Ela engloba tanto substâncias naturais quanto semissintéticas e sintéticas que atuam sobre os receptores opioides.

Assim, todo opiáceo pode ser considerado um opioide, mas nem todo opioide é necessariamente um opiáceo.

O consumo de opioides e os riscos do uso inadequado

O consumo de opioides merece atenção porque esses medicamentos podem estar presentes em tratamentos legítimos para a dor e, ao mesmo tempo, apresentar potencial de uso inadequado.

Uma pessoa pode iniciar o consumo por indicação médica e, ao longo do tempo, desenvolver tolerância física. Isso não significa automaticamente que exista dependência química.

Entretanto, alterações no padrão de uso, aumento das doses por conta própria, perda de controle e busca compulsiva pela substância precisam ser avaliados.

Também existem situações em que os opioides são utilizados com finalidade recreativa ou fora das orientações médicas, buscando efeitos como relaxamento ou euforia.

Outro ponto de atenção envolve medicamentos que contêm codeína. Essa substância está presente em determinados analgésicos e pode aparecer em misturas utilizadas de forma recreativa, como o chamado purple drank, geralmente associado à combinação de xaropes contendo codeína com outras bebidas.

Independentemente de a substância ter sido inicialmente prescrita ou utilizada de forma recreativa, o consumo inadequado precisa ser observado com atenção.

Quais são os efeitos dos opioides?

Os efeitos variam de acordo com o tipo de opioide, a dose, a forma de administração, as características do organismo e a presença de outras substâncias.

Entre os efeitos mais comuns podem aparecer:

  • redução da percepção da dor;
  • sensação de relaxamento;
  • sonolência;
  • euforia;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • tontura;
  • redução da atenção;
  • alterações da consciência;
  • constipação intestinal;
  • redução da frequência respiratória.

A constipação é um dos efeitos adversos frequentemente relacionados ao uso de opioides e pode se tornar importante quando o tratamento é prolongado.

Frasco de oxicodona tombado com comprimidos brancos ao lado

Outro risco relevante é a depressão respiratória. Em doses elevadas, principalmente quando combinados com outros depressores do sistema nervoso central, os opioides podem diminuir perigosamente a capacidade de respirar.

Por isso, alterações importantes no nível de consciência ou na respiração após o consumo precisam ser tratadas como uma situação de emergência.

Como uma pessoa pode desenvolver dependência de opioides?

A dependência não surge da mesma maneira para todas as pessoas.

Em alguns casos, o contato começa durante um tratamento médico legítimo. Pessoas com dores intensas ou determinadas doenças podem precisar utilizar opioides por períodos maiores.

Com o tempo, o organismo pode desenvolver tolerância, fazendo com que uma determinada dose produza efeitos menores do que anteriormente.

Também pode surgir dependência física, situação em que o organismo se adapta à presença do medicamento e apresenta sintomas quando o consumo é reduzido ou interrompido.

Esses fenômenos não significam, por si só, que a pessoa tenha desenvolvido um transtorno relacionado ao uso de opioides.

O problema se torna mais preocupante quando aparecem comportamentos como perda de controle sobre o consumo, uso compulsivo, dificuldade de reduzir a substância, continuidade apesar das consequências e busca constante pelo medicamento.

O uso recreativo também pode favorecer esse processo, principalmente porque alguns opioides produzem euforia e reforçam a repetição do comportamento.

Fatores biológicos, psicológicos, familiares, sociais e relacionados ao próprio padrão de consumo podem contribuir para o desenvolvimento da dependência.

Sinais de dependência de opioides

Identificar a dependência nem sempre é simples, especialmente quando o consumo começou por indicação médica.

Alguns sinais, porém, merecem atenção:

  • necessidade crescente de utilizar a substância;
  • dificuldade para reduzir ou controlar o consumo;
  • preocupação frequente com a próxima dose;
  • utilização em quantidades maiores do que as orientadas;
  • busca do medicamento com diferentes profissionais;
  • obtenção de opioides sem prescrição;
  • uso mesmo diante de prejuízos familiares, sociais ou profissionais;
  • abandono de atividades importantes;
  • alterações importantes de comportamento;
  • sintomas de abstinência quando a substância é interrompida;
  • forte desejo ou fissura pelo opioide;
  • uso associado a outras drogas ou medicamentos sem orientação;
  • grande parte da rotina organizada em torno da obtenção ou do consumo da substância.

É importante diferenciar dependência física decorrente de um tratamento médico de um quadro de dependência química. Essa avaliação deve ser realizada por profissionais qualificados.

Mão de profissional de saúde segurando comprimidos coloridos

Sintomas de abstinência de opioides

Quando existe dependência física, a interrupção ou redução do opioide pode desencadear uma síndrome de abstinência.

O momento em que os sintomas começam varia conforme a substância utilizada. Opioides de ação mais curta podem provocar sintomas mais rapidamente, enquanto medicamentos de ação prolongada podem apresentar manifestações mais tardias.

Entre os sintomas podem ocorrer:

  • ansiedade;
  • inquietação;
  • irritabilidade;
  • insônia;
  • dores musculares;
  • suor excessivo;
  • lacrimejamento;
  • coriza;
  • arrepios;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • cólicas;
  • diarreia;
  • alterações do apetite;
  • aumento da frequência cardíaca;
  • fissura intensa pela substância.

A abstinência de opioides pode ser bastante desconfortável e favorecer a retomada do consumo.

Embora normalmente não seja considerada potencialmente fatal por si só, determinadas pessoas podem apresentar complicações, especialmente em razão de desidratação, doenças preexistentes, uso simultâneo de outras substâncias ou condições clínicas associadas.

Por isso, não é recomendado realizar a interrupção de maneira improvisada quando existe dependência importante. A avaliação profissional permite definir uma estratégia mais segura.

Após a fase aguda, algumas pessoas ainda podem apresentar alterações no sono, no humor, na disposição e episódios de fissura, reforçando a importância do acompanhamento continuado.

Fatores que podem aumentar o risco de dependência

Não existe um único fator responsável pela dependência de opioides. Na maioria das situações, diferentes elementos estão envolvidos.

O risco pode ser maior em pessoas com histórico pessoal ou familiar de transtornos relacionados ao uso de substâncias, presença de transtornos mentais, uso de diferentes medicamentos psicoativos, dores crônicas, exposição prolongada aos opioides e utilização de doses elevadas ou diferentes das prescritas.

O contexto social, experiências traumáticas e outros fatores emocionais também podem contribuir.

A presença de fatores de risco não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá dependência, mas indica a necessidade de atenção e acompanhamento mais cuidadoso.

Os opioides podem causar overdose?

Sim. A overdose de opioides representa uma das complicações mais graves associadas a essas substâncias.

Grande quantidade de comprimidos coloridos ao lado de um termômetro

Ela acontece quando a quantidade utilizada provoca uma depressão intensa do sistema nervoso central e, principalmente, da respiração.

Entre os principais sinais de uma possível overdose estão:

  • dificuldade ou redução importante da respiração;
  • inconsciência ou dificuldade para despertar;
  • pupilas muito contraídas;
  • pele fria ou alteração da coloração dos lábios;
  • ausência de resposta a estímulos.

A combinação entre inconsciência, pupilas contraídas e dificuldade respiratória é considerada particularmente característica de overdose por opioides.

O risco aumenta com doses elevadas, uso sem acompanhamento médico, associação com outras substâncias depressoras do sistema nervoso central e retomada do consumo após um período de abstinência.

Essa última situação é especialmente perigosa porque a tolerância pode diminuir durante o período sem uso. Retomar a mesma quantidade utilizada anteriormente pode resultar em overdose.

Diante da suspeita de overdose, é necessário buscar atendimento de emergência imediatamente.

Relação entre opioides e benzodiazepínicos

Opioides e benzodiazepínicos atuam de maneiras diferentes, mas ambos podem provocar depressão do sistema nervoso central.

Os opioides são utilizados principalmente no controle da dor. Os benzodiazepínicos podem ser empregados, em situações específicas, para quadros como ansiedade, insônia e determinados transtornos neurológicos.

O risco ocorre principalmente quando essas substâncias são combinadas sem acompanhamento médico.

A associação pode intensificar:

  • sedação;
  • sonolência;
  • alterações da consciência;
  • dificuldade respiratória;
  • risco de overdose;
  • risco de morte.

O álcool e outros medicamentos sedativos também podem aumentar esses efeitos.

Por isso, pacientes que utilizam qualquer uma dessas substâncias devem informar ao profissional de saúde todos os medicamentos e outras substâncias consumidas.

Como prevenir a dependência de medicamentos opioides?

A prevenção começa pelo uso responsável.

Medicamentos opioides devem ser utilizados apenas quando houver indicação médica e seguindo a dose, os horários e o período estabelecidos pelo profissional responsável.

Algumas atitudes são importantes:

  • não aumentar a dose por conta própria;
  • não utilizar medicamentos prescritos para outras pessoas;
  • evitar automedicação;
  • informar ao médico outros medicamentos utilizados;
  • comunicar alterações no efeito do medicamento;
  • informar histórico de dependência química;
  • não associar opioides a álcool ou sedativos sem orientação;
  • realizar acompanhamento durante tratamentos prolongados.

Pessoas que percebem necessidade constante de aumentar a quantidade, forte preocupação com o medicamento ou dificuldade para interromper o consumo devem comunicar esses sinais ao profissional responsável.

Mulher deitada com frascos de comprimidos sobre a mesa de cabeceira

Quanto mais cedo o padrão problemático for identificado, maiores são as possibilidades de intervenção.

Como é feito o diagnóstico da dependência de opioides?

O diagnóstico deve ser realizado a partir de uma avaliação clínica abrangente.

Não existe apenas um exame capaz de determinar se uma pessoa apresenta dependência.

O profissional analisa o padrão de consumo, a quantidade utilizada, o tempo de uso, a presença de tolerância, abstinência, fissura e os prejuízos relacionados à substância.

Também são avaliados aspectos como:

  • saúde física;
  • saúde mental;
  • histórico de uso de outras substâncias;
  • medicamentos utilizados;
  • contexto familiar;
  • comportamento;
  • funcionamento profissional e social;
  • tentativas anteriores de reduzir o consumo.

Em determinados casos, exames laboratoriais podem auxiliar na avaliação clínica, mas não substituem a investigação completa realizada pelo profissional.

O diagnóstico adequado é importante para diferenciar o uso terapêutico, a dependência física e um transtorno relacionado ao uso de opioides.

Como ocorre o tratamento da dependência de opioides?

O tratamento precisa ser individualizado.

A estratégia dependerá da gravidade da dependência, do tipo de opioide utilizado, da presença de outras drogas, das condições clínicas e psiquiátricas do paciente e dos riscos associados.

Em algumas situações, pode ser necessário realizar uma fase inicial de estabilização e desintoxicação com acompanhamento médico.

Entretanto, o tratamento não deve se limitar à retirada da substância.

Apenas interromper o consumo sem trabalhar os fatores relacionados à dependência pode aumentar o risco de recaída e, consequentemente, de overdose.

Existem tratamentos medicamentosos específicos para transtornos relacionados ao uso de opioides. A escolha depende de avaliação médica e das características de cada paciente.

Além do tratamento medicamentoso, intervenções psicológicas e terapêuticas ajudam o paciente a compreender os fatores associados ao consumo, reconhecer gatilhos, desenvolver habilidades emocionais e construir estratégias para prevenção de recaídas.

A dependência química envolve aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Por isso, uma abordagem integrada tende a oferecer melhores condições para uma recuperação consistente.

Mulher levando um comprimido à boca com um copo de água na mão

Quando a internação pode ser necessária?

Nem toda pessoa com dependência de opioides precisa obrigatoriamente ser internada.

A necessidade deve ser definida por avaliação profissional. A internação pode ser considerada quando existem fatores como:

  • consumo intenso e descontrolado;
  • risco elevado de overdose;
  • uso associado de múltiplas substâncias;
  • dificuldade importante de interromper o consumo;
  • crises psiquiátricas;
  • prejuízo significativo da capacidade de autocuidado;
  • repetidas recaídas;
  • ambiente externo que dificulta a estabilização;
  • necessidade de acompanhamento médico e de enfermagem mais próximo.

Nessas situações, permanecer temporariamente em um ambiente protegido pode facilitar a estabilização clínica e o início estruturado do tratamento.

A importância de uma clínica especializada no tratamento

Em quadros mais graves, uma clínica especializada pode oferecer acompanhamento contínuo e uma estrutura terapêutica capaz de integrar diferentes áreas do tratamento.

No Grupo Recanto, o cuidado é realizado por uma equipe interdisciplinar, considerando tanto a dependência química quanto possíveis transtornos de saúde mental associados.

O acompanhamento pode envolver profissionais de diferentes especialidades, como médicos, profissionais de enfermagem, psicólogos, terapeutas, nutricionistas, profissionais de educação física e terapia ocupacional, entre outros.

Durante o tratamento, são trabalhados aspectos como:

  • estabilização clínica;
  • compreensão da dependência;
  • desenvolvimento do insight;
  • regulação emocional;
  • prevenção de recaídas;
  • mudança de comportamentos;
  • reconstrução de vínculos;
  • responsabilização pelo processo de recuperação;
  • preparação para a continuidade do cuidado após a internação.

O objetivo não é apenas interromper o consumo da substância, mas ajudar o paciente a desenvolver recursos para manter a recuperação e reorganizar diferentes áreas da própria vida.

Conclusão

Os opioides possuem importante utilização médica e podem contribuir significativamente para o controle da dor quando empregados de maneira adequada.

Entretanto, tolerância, dependência, uso inadequado e overdose são riscos que não devem ser ignorados.

A dependência pode começar de diferentes formas. Algumas pessoas iniciam o consumo durante um tratamento médico, enquanto outras procuram essas substâncias pelos efeitos de relaxamento ou euforia.

Independentemente da origem, o sinal de alerta aparece quando existe perda de controle e o consumo começa a provocar prejuízos físicos, emocionais, familiares ou sociais.

A overdose representa uma das complicações mais graves, principalmente pela capacidade dos opioides de reduzir a respiração.

Da mesma forma, a abstinência e a fissura podem dificultar a interrupção do consumo sem acompanhamento adequado.

Por isso, o tratamento deve considerar muito mais do que apenas a retirada da substância.

Avaliação médica, cuidado psicológico, intervenções terapêuticas, prevenção de recaídas e acompanhamento continuado são partes importantes do processo.

Quando existe comprometimento significativo ou risco à saúde, uma estrutura especializada pode oferecer proteção e suporte para o início da recuperação.

No Grupo Recanto, o cuidado é desenvolvido de forma individualizada e interdisciplinar, buscando compreender as necessidades de cada paciente e oferecer recursos para a reconstrução de uma vida mais saudável, segura e consciente.

NÓS LIGAMOS PARA VOCÊ

Fabrício Selbmann é psicanalista, palestrante sobre Dependência Química e diretor da Recanto Clínica Hospitalar – rede de três clínicas de tratamento para dependência química e saúde mental, referência no Norte e Nordeste nesse segmento.

Especialista em Dependência Química pela UNIFESP, pós-graduado em Filosofia | Neurociências | Psicanalise pela PUC-RS, além de especialização na Europa sobre o modelo de tratamento Terapia Racional Emotiva (Minessota).

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